Imagens Quebradas, quais imagens (devemos) quebrar? - Colégio Parthenon

Imagens Quebradas, quais imagens (devemos) quebrar?

Misturas e transformações G2 – Unidade III
11 de março de 2020

A equipe de gestores do Colégio Parthenon Bom Clima é constituída por profissionais que tiveram suas formações iniciais em diferentes momentos da educação brasileira, assim como seu início na carreira docente. Há aqueles que, há mais de quarenta anos, estão em ação dentro da sala de aula; outros, trinta anos; mais alguns, vinte ou quinze; e eu, o mais novo, com dez anos. Somos um conjunto de histórias e marcas, sobretudo aquelas que nós nos permitimos lembrar, as mais carregadas de emoção, risco ou afetividade.

Aprendemos em escolas, espaços físicos e tempos distintos. Seguimos aprendendo. Carregamos um mesmo princípio e desejo: educação de qualidade para todos!

Em minha trajetória com esse grupo esbarrei em diversas obras e, uma delas, possibilitou a releitura que irei apresentar. Trata-se do livro Imagens Quebradas, de  Miguel Arroyo, lançado em 2014. Naquele momento, o autor discutia as marcas da formação de cada docente em aproximação à infância, à adolescência e à juventude encontradas por eles nas salas de aulas “atuais”.

Noutro dia, meados de março de 2020, recebi uma fotografia do diretor Eduardo Oliveira. Nela, estavam os corredores vazios da unidade I, Bom Clima. Uma escola sem alunos não é a mesma, “parece uma casa desabitada”. Foi aí que me lembrei do Arroyo, pois ele já declarava: “Não sabemos viver sem eles e elas. Sentimos sua ausência. Até seu incômodo”.

O que mudou nas escolas? Felizmente, há uma mudança passageira, pois em breve voltaremos a ocupar aquele espaço. Mormente, há mudanças que permanecerão e que já deixaram suas marcas, pois nos obrigaram a repensar a educação fora das limitações das salas de aula padrão. Obrigaram-nos a repensar as imagens com que representamos nossos alunos. Voltaremos sim! Mas, essas imagens terão de ser outras,  uma vez que os alunos – e também os espaços – já são outros.

Arroyo já nos alertava que “é oportuno lembrar que os docentes não se afirmaram apenas por suas disciplinas, mas por seu profissionalismo, seu preparo, seu protagonismo político, social e cultural. Os adolescentes e jovens também afirmam o seu protagonismo nas escolas e na sociedade não tanto por suas (in)disciplinas, mas por sua nova presença no trabalho, na cultura, nos movimentos sociais”. Reforçamos que nossos alunos não são outros apenas por serem sujeitos sociais, culturais, humanos; mas, também, porque uma parte ínfima da infância, da adolescência ou da juventude foi forçada a ser vivida sob outras luzes, para muitos, com marcas significativas.

Costumo dizer aos meus parceiros profissionais com muita frequência: repensem sua visão sobre a educação, a infância e a adolescência. Todavia, o momento vivido parece nos dizer de forma ainda mais desafiante: repensem sua visão sobre a educação, a infância e a adolescência!

Será que permitiremos que as imagens consolidadas sejam quebradas? É, meus caros, acredito que já tenham sentido que muitas já se quebraram! Nós as daremos por perdidas? Que tal fazermos um mosaico dos cacos, ou não? Julgo que as marcas de nossa profissionalização, em consonância com o contexto, põem em evidência nossas forças e saberes e conduzem para um repensar das nossas autoimagens docentes. De maneira radical, precisamos repensar, sim, o ensinar, o aprender, o avaliar, o acolher, o ser profissional da educação. Essas imagens são e foram quebradas e reconstruídas constantemente, mas nossa percepção, muitas vezes, não nos permitia tanta estranheza.

Em 2020, em especial, a quebra de muitas imagens se deu exatamente em tempos em que as condições de trabalho docente se deterioram e é neste contexto, que chamo para uma reflexão: como sair desse impasse ou, ao menos, como equacioná-lo com profissionalismo?

Um abraço,
Eneias Prado