Família e Escola: uma relação tecida a muitas mãos – Colégio Parthenon

Família e Escola: uma relação tecida a muitas mãos

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Simone Pannocchia Tahan

Escrever sobre a relação família e escola pode parecer, a princípio, um pouco desnecessário visto que são duas instituições que comungam de um mesmo objetivo: propiciar a melhor educação para os filhos e aos alunos. Mas, como acontece em toda relação, essa proximidade por si só já compatível precisa ser construída com muito cuidado e estar pautada em princípios sólidos e coerentes. É uma relação que vai sendo tecida, dia após dia, com linhas e agulhas especialmente escolhidas para essa costura.

Afeto, admiração, respeito e confiança são algumas das emoções que permeiam uma convivência que pode ser conflituosa já que o conflito é algo inerente a olhares, contextos e posições diferentes. Contudo, também pode ser harmoniosa, quando há empatia e escuta de ambas as partes. Se pudesse imaginar uma imagem que simbolizasse essa relação, escolheria uma colcha de retalhos: trata-se de muitos tecidos que trazem sua singularidade (nenhum tecido é igual ao outro) mas que, quando estão juntos, ganham força e contorno específicos.

Trabalho na Educação há 40 anos e hoje, mais do que nunca, sinto a necessidade do estreitamento dos vínculos entre a família e a escola. Talvez a maturidade e a experiência tenham me trazido a oportunidade e a seriedade de entender que, sem demagogia alguma, essas duas instituições podem fortalecer-se ainda mais e construírem parcerias muito saudáveis. Já diz um velho provérbio africano: É preciso de toda uma aldeia para educar uma criança. 

É bem verdade que o Colégio Parthenon sempre se preocupou em manter os pais muito próximos ao trabalho que desenvolve e em adotar medidas de transparência em todas as suas ações, mas percebo que agora essa intencionalidade da ação está muito mais clara e potente. Foi chegada a hora de deixar nossas costuras a vistas de todos, com todos os alinhavos necessários à tessitura desta colcha.

O isolamento social nos impôs uma realidade sobre a qual não tínhamos – nem temos –  segurança e controle em relação ao futuro. A possibilidade de nos aproximarmos das famílias, para juntos acharmos saídas, foi uma ação que nos ajudou a encontrar caminhos e soluções para problemas que nem imaginávamos existirem. Tínhamos a realidade vista pela lente da escola e essa não era a única que precisava ser considerada: precisávamos dos olhares das famílias. A escola adentrou nas casas sem pedir permissão e o inverso também foi verdadeiro,  afinal passamos a ter as famílias no interior das salas de aulas. Mais do que nunca precisamos encontrar canais de interlocução para que, aos poucos, pudéssemos tecer, com linhas bem resistentes, uma nova configuração dessa relação.

O que na arte da costura damos o nome de molde (primeira ação antes de cortarmos a peça que estamos tecendo), na educação damos o nome de escuta atenta. Escutar as dores, ansiedades, medos, aflições e expectativas foi – e continua sendo – uma prática constante do Parthenon. Foram planejados momentos para essa escuta e a explicitação de diferentes ordens apareceram:

“Como ficará o conteúdo do ano letivo?”

“Tenho trabalhado em casa, não consigo acompanhar minha filha durante as aulas on-line. Tenho me sentido muito culpada por isso.”

“Será que nossos filhos terão condições de acompanhar o próximo ano?”

“Meu filho, de 4 anos, não fica muito tempo atento às lives. O que faço? Vale a pena permanecer com ele na escola?”

“Como meu filho enfrentará o vestibular sem a constância das aulas presenciais?”

Dentre tantas demandas, fomos aos poucos ajudando as famílias – e a nós mesmos – a reconstruir a ideia de uma escola que até então não existia. Uma escola que não traz mais o contato físico; uma escola em que os espaços do brincar e da convivência ficaram restritos a uma tela de computador; uma escola em que a manifestação do afeto começou a ser sentida apenas pelo olhar (distante) e pelo tom da voz; uma escola que o intervalo é feito sem a presença dos amigos… enfim uma escola que nunca imaginávamos existir.

Os encontros virtuais com as famílias tornaram-se uma rotina em nosso dia a dia – nossas noites foram permeadas de conversas e escutas. Aos poucos, o que era apenas um encontro de explicitação de dúvidas tornou-se um encontro em que falávamos dos propósitos do Parthenon no contexto vivido, mas também havia espaço para a literatura, para a arte e para o afeto.

Nossa colcha ainda não está acabada (e o incrível de se pensar nas relações humanas é que sempre há espaço para uma nova configuração), mas temos hoje uma relação não mais pautada em um alinhavo e, sim, em uma costura fortalecida por muitas histórias vividas e construídas em um tempo de tantas dúvidas e receios.

Em 2010, iniciamos nossa jornada com o mundo escolar sob a ótica de pais. O Colégio Parthenon foi nossa escolha, é o espaço onde fomos acolhidos com nossas duas filhas (Júlia e Maria Clara) com tanto cuidado e carinho!

Vivemos tantas histórias até aqui, com tanta liberdade de movimento e conexões com profissionais e alunos, que agora dentro desta nova e delicada realidade que vivemos, sentimos o real valor de cada momento. E vale lembrar que o acolhimento, sensibilidade e o profissionalismo que recebemos desde o início de nossa história escolar com o colégio não se perderam em nenhum momento com a pandemia, e isso nos fortalece e acalma o coração!

Com o novo formato da educação a distância, aos poucos estamos aprendendo a nos adaptar e a nos conhecer nestes novos papéis integrados (escolares, profissionais, afetivos e do lar). Tem sido desafiador para todos nós (pais e filhos) pois estamos sendo colocados de frente a muitos fatores novos que nos exigem soluções criativas em curto tempo  e nos colocam dentro de um contexto onde as crianças não podem gastar suas energias e clamam por atenção. E tudo isso somado aos demais compromissos profissionais e da casa, que consome tempo e energia dos pais.

Auxiliá-las nas aulas diariamente, principalmente com o ensino infantil (pela maior dependência), tem sido uma experiência que destaco como a que exige mais criatividade e sabedoria. O que mais encanta é acompanhar tão de perto as descobertas e a evolução diária do aprendizado de cada uma e esse é o lado ao qual me apego!

Observo a cada dia que é uma travessia possível se temos a estrutura e apoio incondicional da escola somada à aceitação da atual realidade. Para driblar toda a ansiedade que gera o momento, buscamos realizar brincadeiras e atividades lúdicas juntos, meditação e orações em família, e assim temos vivido dias mais suaves na medida do possível.

O que tem ficado de aprendizado a cada dia é sem dúvida alguma, os laços que estão sendo fortalecidos com nossas filhas e o que estamos deixando de memória afetiva a elas. Temos muita gratidão ao Colégio pelo lindo trabalho que tem feito, pelo espaço em ouvir nossas vozes, e por nos ensinar a estar nesta escola de Pais.

Marli Nunes – mãe da Júlia e da Maria Clara 

Poesia de inspiração dadaísta criada por Renata Budoia, apresentado em um dos encontros realizados – mãe dos alunos Enrico e Archangelo