Projeto Agroveneno

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Integrantes:
Livia Andrade
Gustavo Novaes
Marcelo Eduardo
Lucas Souza
Marina Sampaio
Laura Camacho
Rafael Fabri

O Veneno de Cada Dia: O Consumo dos Agrotóxicos no Brasil
Você de fato sabe o que chega até sua mesa e constitui suas refeições diárias? Atualmente, as frutas, legumes e vegetais considerados os heróis da alimentação saudável tem tomado um lugar especial no cardápio não só dos brasileiros, mas de toda a população mundial. Entretanto, será que a constante expansão na busca e consumo de produtos agrícolas tem revertido em melhoria nos hábitos alimentares?

Enquanto checava suas mídias digitais ou conferia as notícias da semana, provavelmente você já tenha se deparado com manchetes como: “Brasil: Maior consumidor de agrotóxicos do mundo” ou  “Congresso discute liberação do uso de novos pesticidas agrícolas”. Mas afinal, o que realmente são os agrotóxicos? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), agrotóxico é toda substância capaz de controlar uma praga que possa oferecer risco ou incômodo às populações e ao meio ambiente.

O início da era dos agrotóxicos se deu a partir da Revolução Verde, iniciada no fim da década de 1940. Foi um processo no qual diversas tecnologias foram desenvolvidas, como a criação do maquinário. Essas inovações trouxeram a mecanização do campo, técnicas de fertilização da terra, sementes que se adequam a tipos específicos de solo e climas e os agrotóxicos. Tudo com o objetivo de modernizar a agricultura e aumentar a produtividade.

No Brasil, a Revolução Verde e, consequentemente, os primeiros passos no uso dos pesticidas, aconteceu durante as décadas de 1960 e 1970. A partir , o emprego desse produto está em constante aumento, sendo a atual agricultura brasileira dependente desse recurso.

Como é de conhecimento geral, boa parte da economia brasileira é voltada para a exportação de commodities, sobretudo de produtos agrícolas. O país é o terceiro maior produtor mundial, tendo sua estabilidade financeira diretamente relacionada à exportação agrícola.

A fim de atender às grandes demandas tanto internas (abastecimento da crescente população) quanto externas, se faz necessário aumentar a oferta. Para ser possível manter essa produtividade e lidar com os diversos empecilhos da agricultura brasileira (como o solo nem sempre fértil e o clima tropical, que aumenta a proliferação das pragas), os agrotóxicos tem se tornado uma necessidade.

Todavia, será que o Brasil faz um emprego consciente dos pesticidas ou abusa no seu uso? Segundo o Sindiveg (O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), nas produções agrícolas brasileiras são consumidos anualmente mais de 1 bilhão de litros de agrotóxicos.

Além do crescimento no consumo dos pesticidas agrícolas que aconteceu nos últimos anos e que ainda acontece, outro fator preocupante para questões relacionadas ao ambiente, saúde pública e bem estar dos trabalhadores rurais é o fato do país utilizar uma série de produtos que já foram banidos em países europeus e Estados Unidos. Segundo uma  pesquisa realizada pela USP em 2017, foi constatado que cerca de 149 dos 504 pesticidas empregados no Brasil são proibidos na Europa. As Nações Unidas Brasil também concluíram, em 2018, que “cinco dos dez pesticidas mais vendidos no Brasil (Atrazina, Acefato, Carbendazim, Paraquat, Imidacloprida) não são autorizados em diversos outros países devido a seus riscos à saúde humana ou ecossistemas. Além disso, notaram que os padrões brasileiros existentes permitem níveis mais altos de exposição a pesticidas tóxicos do que os equivalentes na Europa.”.

No final do ano passado, uma polêmica acerca da maneira como os agrotóxicos são utilizados nas plantações brasileiras em larga escala voltou a tomar a mídia, após o  Projeto de Lei (PL) ter sido aprovado em uma comissão da Câmara dos Deputados. A “PL do veneno”, como é popularmente conhecida, tem como principais propostas: mudar a denominação do termo “agrotóxico” para “defensivo”, exatamente para suavizar a ideia negativa que o atual nome passa; centralizar o registro de novos agrotóxicos (atualmente sobre gerência do Ibama e da Anvisa) nas mãos do Ministério da Agricultura, o qual provavelmente irá se preocupar mais com o aumento da produtividade para se obter melhores retornos financeiros, ao invés de se importar de fato com o excessivo uso de agrotóxicos; determinar como crime somente a produção, armazenamento, transporte e importação de produtos “não registrados ou autorizados”, desconsiderando  quantidade, o local e o modo de aplicar o produto.

A expansão no uso dos pesticidas agrícolas não foi acompanhada pelo desenvolvimento de programas que se dedicariam a repensar nas consequências que o emprego dos agrotóxicos trariam para os produtores rurais, saúde da população consumidora e meio ambiente. Abordando as possíveis consequências para a saúde pública, os pesticidas podem ocasionar tanto intoxicações agudas, aquelas que afetam os trabalhadores rurais devido a exposição a esse produto. Os principais sintomas são irritação da pele e olhos, coceira, cólicas, vômitos e diarreias, em casos mais graves, nos quais ocorre a contaminação do meio em que os trabalhadores atuam diariamente, estes podem apresentar espasmos, dificuldades respiratórias, convulsões e morte. Além das agudas, também temos as intoxicações crônicas ocasionadas pela ingestão de resíduos de agrotóxicos que residem nos alimentos e no ambiente. Tais infecções podem gerar infertilidade, abortos, malformações, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer.

De acordo com pesquisas recentes, “resíduos desses produtos químicos permanecem no solo no qual foram aplicados uma dúzia de anos antes”, sendo assim o meio de vivência dos trabalhadores do campo é afetado. Consequentemente, o ecossistema também sofre com os prejuízos ocasionados pelas toxinas, já que “entram e se alojam no corpo de peixes, pássaros, répteis e animais domésticos e selvagens”, o que acaba ocasionando um desequilíbrio em toda biodiversidade.

Levando em consideração todos esses graves e muitas vezes irreparáveis danos que os agrotóxicos geram na biodiversidade ambiental, na vida dos produtores rurais e na saúde da classe consumidora desses produtos agrícolas, torna-se importante a busca por novas maneiras de cultivo, que visam a diminuição do uso dos pesticidas ou até mesmo o plantio sem sua utilização.

A fim de entender melhor como de fato a aplicação dos agrotóxicos é realizada nas pequenas e médias propriedades rurais e se é possível empregar técnicas de plantio sem seu uso,  entrevistamos o casal de produtores agrícolas, Conceição Áquila de Nascimento Coutinho e Tiago Coutinho, que atuam na produção de morango, na região de Congonhal, na cidade de Cambuí, Minas Gerais.

1) Quais os principais agrotóxicos que são utilizados na produção?
Em uma produção, existem várias pragas e doenças que podem atingir uma planta. Sendo assim, para determinar quais agrotóxicos usaremos, temos que ter em mente qual organismos pretendemos combater. Se uma plantação está sendo atingida por ácaros, devemos utilizar os acaricidas, em outros casos, podemos empregar fungicidas para combater fungos, que podem estar presentes no solo, nas folhas ou no próprio fruto. Também temos os inseticidas para combater insetos e nematicidas para controle de nematoides. Nas plantações de morango, por exemplo, os mais utilizados são os acaricidas e fungicidas.

2) Como é desempenhado o manuseio desses produtos? São utilizados equipamentos ou vestimentas específicas? Quais as medidas de segurança que precisam ser tomadas na aplicação dos agrotóxicos?
Antes de usarmos esses produtos, fazemos uma espécie de calda, na qual o agrotóxico propriamente dito é temperado de acordo com as instruções expostas em seus rótulos. Na bula de cada pesticida há o receituário para a aplicação daquele agrotóxico em especial. Durante a  aplicação, é preciso fazer uma cobertura total da planta através da pulverização, realizada via motorização ou bomba costal. Em relação às vestimentas utilizadas, existe uma norma que precisa ser seguida. A chamada EPI (Equipamentos de Proteção Individual), estabelece o que os agricultores precisam vestir durante a aplicação dos agrotóxicos. Essas vestimentas são: as luvas, botas, máscara, viseira (espécie de óculos que protege os olhos), chapéu e o macacão, esse é composto por uma blusa e uma calça, que por serem revestimentos impedem o contato direto entre os agrotóxicos e o produtor rural. A respeito das medidas de segurança, ao se aplicar tais produtos sempre é importante verificar se não há nascentes, rios ou até mesmo córregos próximos da área da plantação. Nesse caso, se o cultivo for aberto (realizado fora das estufas), o agricultor precisa se atentar às condições climáticas do dia da aplicação, uma vez que se após o empregos dos pesticidas o plantio for atingido por uma tempestade, por exemplo,  todos os resíduos tóxicos ao ambiente podem ser carregados pela chuva, vindo a atingir não só o solo, mas também os recursos hídricos, o que pode causar diversas consequências negativas para o meio ambiente, como a morte de peixes.

3) Qual o papel que os agrotóxicos desempenham na produção? Sem seu uso seria possível manter a produtividade?
Diferente do que muitos pensam, os agrotóxicos não desempenham nenhuma influência sobre o tamanho, coloração ou beleza do produto agrícola. O que pode fazer com que as frutas, legumes ou vegetais fiquem maiores, mais coloridas e apetitosas é a adubação, seja esta química ou biológica. Os pesticidas têm sua função limitada ao combate das doenças e pragas, como os insetos (que podem danificar o fruto, realizando alguns pequenos furos), ácaros (sugam a seiva da planta) e fungos. Sem os agrotóxicos conseguiríamos manter a produtividade, porém para isso seria necessário o uso de outros recursos, como os produtos biológicos. Os resultados desses produtos são tão positivos quanto aqueles observados pelo uso dos pesticidas, entretanto, para se obter esses resultados, o produtor precisa conhecer o manejo correto desses produtos, uma vez que o que gera a produtividade não será os pesticidas e sim a adubação e o trabalho do produtor rural.

4) Com qual frequência são aplicados os agrotóxicos? Em média, quantos litros são utilizados anualmente?
Nas pequenas e médias produções, a aplicação dos agrotóxicos é realizada a partir do momento que o produtor começa a notar que o cultivo (ou uma determinada planta) apresenta sintomas de doenças ou é vítima de uma certa praga. Por isso, é de fundamental importância que o produtor esteja sempre na lavoura, a fim de notar se há alguma avaria. Por exemplo, caso o campo seja vítima de uma infestação de lagartas (as quais começam a se alimentar das folhas das plantas), o produtor precisará utilizar um inseticida para impedir esses dano; se existir ácaros na produção é necessário pulverizar. Portanto, o emprego dos agrotóxicos só é desempenhado quanto o cultivo é vítima de uma praga. A frequência com que os pesticidas são utilizados vai variar de acordo com que ataques de fungos, insetos e outras pragas acontecem. Assim,  quando a planta está sadia não se tem a necessidade de utilizar os pesticidas.

Em relação a quantidade de agrotóxicos que são utilizados, esse número é muito variável, uma vez que cada cultura agrícola irá solicitar uma quantidade específica de pesticidas. Tudo depende de como essa planta irá se comportar ao longo da produção (se o campo sofre ou não com o ataque de pragas) e das variações climáticas, já que  temperatura e a umidade impactam diretamente o desenvolvimento da planta. Por exemplo, caso a plantação seja atingida por uma temporada de chuvas é necessário que se pulverize essa área, já que quando chove a água leva consigo boa parte dos agrotóxicos que já haviam sido aplicados, passando a ser necessário pulverizar novamente toda a região. Outro determinante será o fato da produção ser desempenhado no interior de estufas  ou em campo aberto. Nesse caso, como a produção fica exposta a todos os variantes naturais (variação climática, presença de pragas) são utilizados mais defensivos. Diferente das produções que estão protegidas pelas estufas, nessas é possível diminuir consideravelmente as quantidades de pesticidas que são empregadas. Por fim, é importante considerar qual produto está sendo utilizado. Cada pesticida tem sua dosagem prescrita no rótulo, sendo essencial que o produto siga as instruções de uso e aplique conforme as quantidades instruídas.  Em média, nas produções de morango, utilizamos cerca de 1000 litros de pesticidas por hectare plantado.

5) Já foram observados efeitos colaterais devido ao uso dos agrotóxicos na plantação?
Conseguimos observar diferentes efeitos na produção ao utilizar agrotóxicos muito fortes ou de maneira inadequada. As principais consequências vistas, geralmente,  são as queimas ou até mesmo as mortes das plantas. Muitas vezes, quando o produtor aplica os pesticidas embaixo do Sol quente ou quando se emprega os agrotóxicos no período da manhã e em seguida a plantação é  diretamente atingida pelos raios solares, existe uma considerável chance de queimar a planta. Por isso, sempre se recomenda que esse produto seja aplicado no período da tarde.

6) Seria possível empregar outros recursos no combate das pragas diferente dos agrotóxicos? Até que ponto o emprego desses artifícios seria financeiramente viável?
Atualmente, podemos desempenhar o plantio sem o uso dos agrotóxicos, por meio da agricultura orgânica e do uso de produtos biológicos. Sendo um mercado em expansão, muitos produtores estão abrindo mão dos produtos químicos, para começarem a utilizar aqueles de ordem biológica. Essa substituição se deve ao fato de que  muitas vezes, por uso indevido, os agrotóxicos não geram os efeitos esperados, de modo que os agricultores gastam altos valores com esses produtos, que, em alguns casos, não combatem a praga ou a doença como precisava ser combatida.. Em termos financeiros, devido aos elevados valores dos pesticidas, está sendo mais barato trabalhar com produtos biológicos, que por serem orgânicos, não irão ocasionar nenhum dano ao meio ambiente, produtores rurais ou para aqueles que consomem o produto final. Embora os biológicos têm trazido bons resultados, de modo que os produtores obtêm uma boa lavoura por valores bem mais baixos, para isso é necessário ter paciência e disponibilidade de tempo, para se dedicar à plantação.

Conforme dito pelos nossos entrevistados, nos últimos anos, começaram a surgir alguns movimentos que defendiam do ponto de vista ambiental e da saúde pública que os agrotóxicos embora ainda necessários, eram extremamente agressivos e prejudiciais para outras áreas. Na busca por alternativas de cultivos agrícolas mais sustentáveis, surgia a agricultura orgânica.

A  “Agricultura Orgânica para o Século 21” foi um relatório realizado pelo professor de Ciência do Solo e Agroecologia, John Regalnold, juntamente com o doutorando Jonathan Wather. O relatório traz estudos que visavam buscar solução para a agricultura. De acordo com esses estudos, a solução para se produzir em larga escala sem o emprego dos agrotóxicos seria mesclar métodos orgânicos com tecnologias modernas usadas nos plantios tradicionais.

No relatório, Regalnold e Wather colocam que para acontecer a agricultura orgânica em larga escala seria necessário ocupar mais terras, demandando novas formas de divisões produtivas, indo contra os grandes latifúndios. Além disso, nas novas áreas de plantio deverão ser empregadas novas técnicas agrícolas como:  rotação de culturas, gestão natural de pragas, diversificação agrícola e pecuária, melhoras na condição do solo a partir de uso de compostagem, adubação verde e animais.

Algumas experiências  de superação desse modelo ganham notoriedade  nos últimos anos. A agroecologia é uma delas. Nela o conhecimento produzido ao longo da história da agricultura é associado a tecnologia inovadoras desenvolvida,  casando o conhecimento empírico com o conhecimento científico e potencializando o processo produtivo.

Entretanto,embora exista um crescimento na prática da agricultura orgânica nos últimos anos, observa-se que frente a agricultura tradicional,  ainda é limitada, visto que atende um grupo específico de consumidores, levando em consideração que a prática demanda um grande investimento financeiro e por isso tratam-se de de produtos com maior preço, não acessíveis à população em geral.

Fica evidente que para  aliar quantidade com qualidade torna-se necessário políticas públicas que possibilitem aumento do número pequenos produtores rurais, estímulo a cooperativas que possibilitasse o ciclo econômico, aumentando a produção, barateando o produto e consequentemente estabelecendo um mercado consumidor mais amplo.

Outro ponto importante é a conscientização da população acerca dos benefícios da agricultura orgânica, que além das questões econômicas e sociais dos pequenos produtores, promove  melhores condições de saúde e meio ambiente para toda a população. Assim concluímos que, se somos o que comemos, devemos nos preocupar e atentar a respeito daquilo que consumimos.